A forma como trabalhamos está mudando. A IA não está apenas transformando tarefas. Ela está remodelando equipes inteiras. Como planejamos essa mudança? O que ela significa e como podemos liderar esse processo com intenção?
Ao longo da minha carreira, percebi que organogramas costumam seguir uma estrutura muito familiar: a pirâmide. Na base, há um grande grupo de colaboradores, geralmente pessoas recém-formadas, cheias de energia, curiosidade e vontade de crescer. No meio, um grupo menor de gestores e profissionais experientes. No topo, líderes responsáveis por visão, cultura e estratégia.
Essa pirâmide também marcou meu início. Entrei na Monotype há cerca de dez anos respondendo e-mails técnicos em um cargo de suporte. Esse trabalho me ensinou como nossos sistemas funcionam e o que nossos parceiros precisavam. Aprendi a identificar ineficiências, tomar iniciativa, corrigir erros e evoluir. Foi a base de tudo o que veio depois.
Hoje lidero Partner Experience e Inventory Lifecycle na Monotype. Meu time trabalha com mais de 5.000 parceiros globais de design tipográfico e ajuda milhões de clientes a encontrar as fontes que amam. Tenho orgulho dos resultados, mas ainda mais orgulho das pessoas que os tornam possíveis.
Nas indústrias criativas, os caminhos profissionais raramente são lineares. Freelancers, estúdios independentes e formações não tradicionais são comuns. Isso torna ainda mais essencial planejar o futuro e criar, de forma intencional, oportunidades para a próxima geração. Em meio a tanta mudança, muito potencial pode se perder.
E essa mudança é real. Enquanto meu time explora como aproveitar a IA, também penso em como ela transforma a estrutura do trabalho. Se a IA é capaz de assumir tarefas fundamentais que antes ficavam com profissionais iniciantes, a forma da pirâmide começa a mudar. Estamos caminhando para um modelo em forma de diamante: menos funções de entrada, um centro mais amplo e um topo mais enxuto.
Isso não é teoria. Ferramentas de IA já aceleram fluxos de trabalho, reduzem atividades manuais e entregam resultados impressionantes. Tarefas antes atribuídas a estagiários ou profissionais juniores agora são realizadas por ferramentas. A oportunidade de aprender fazendo – de observar, perguntar, errar – está diminuindo. Então de onde virão os líderes do futuro?
Nossa forma de contratar, treinar e desenvolver talentos precisa evoluir junto com as ferramentas. Hoje estou focada no desenvolvimento do meu time ampliando responsabilidades, incentivando experimentação e garantindo comunicação eficiente com outras equipes. Planejamento de sucessão é um ponto central: identificar necessidades futuras, mapear caminhos de crescimento e decidir quem contratar ou desenvolver agora para atender os desafios de amanhã.
No curto prazo, isso significa oferecer mais autonomia, mais exposição estratégica e mais oportunidades de crescer, além de criar espaços onde errar faz parte do aprendizado. Também significa contratar não só por habilidades, mas por potencial. E repensar o design organizacional: criar estruturas onde a comunicação entre áreas aconteça de forma natural. A capacidade humana de colaborar é o que nos torna especiais.
No longo prazo, há mais dúvidas. Com menos funções iniciais, como ainda oferecer a exposição e o acompanhamento que desenvolvem julgamento? Como cultivar qualidades como persistência, resiliência e pensamento de longo prazo, que muitas vezes nascem em tarefas repetitivas ou menos glamourosas?
Esse desafio não é novo. Antigamente, estágios envolviam buscar café e anotar reuniões. Lembro de um estágio em que passei três meses em uma mesa ao lado da impressora, escrevendo cartões de agradecimento à mão e atualizando planilhas manualmente. Com o tempo, os estágios se tornaram mais estruturados e educativos. Talvez essa nova mudança seja mais uma oportunidade de repensar como apoiamos o início das carreiras. Podemos trazer aprendizado, responsabilidade e exploração para o dia a dia das pessoas que estão começando? Podemos substituir tarefas manuais por ownership para desenvolver as qualidades de que precisamos?
Mesmo no design tipográfico – um campo cheio de autodidatas e trajetórias nada lineares – essa transformação já está acontecendo. Designers estão usando IA para gerar ideias, automatizar espaçamentos e testar mais rápido. É empolgante e incerto. A repetição do kerning manual fortalecia a resistência mental. Com a automação, precisamos de novas formas de construir essas mesmas habilidades.
Esse modelo em forma de diamante não precisa significar menos oportunidade. Mas exige mais intenção. A IA está mudando como as carreiras começam. Com visão e planejamento, ainda podemos formar líderes juniores excepcionais e resilientes.
O futuro continua profundamente humano. Cabe a nós mantê lo assim.

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